Se todos, como o rei Salomão, tivessem um sábio coração, o mundo seria melhor. No romance “A Insustentável Leveza do Ser”, o escritor tcheco, Milan Kundera, afirma com segurança: “No reino do kitsch, impera a ditadura do coração”. E ao abordar o aspecto negativo desse domínio, garante que está aí a origem das pieguices sustentadoras de políticos ridículos no poder. Porque a utilização do kitsch implica no uso de “imagens-chave” como condicionantes do povo. Os políticos, como forma de fazer prevalecer a popularidade, recorrem, tanto na mídia, como no marketing pessoal, a essas imagens-chave dotadas de um sentimentalismo barato e de duvidoso gosto artístico. São artimanhas, que agradam maiorias. Envolvem e até fazem as massas chorarem de emoção. Cita exemplos de “chavões” desse tipo como: o velho pai abandonado; a filha ingrata; garotos correndo na grama; a pátria traída e a lembrança do primeiro amor. Assegura Kundera que todo político, ao perceber fotógrafos, corre para levantar no colo a primeira criança encontrada, para beijá-la. Dessa forma, sem senso de ridículo, numa hipocrisia interesseira, padronizada e imperativa (porque é aplaudida pela população), a utilização desse tipo de “ideal estético” torna-se comum. Pois, o kitsch estabelece crenças fundamentais como uma espécie de sentimentalismo dogmático, e ao mesmo tempo, nega tudo o que for essencialmente inaceitável na existência humana. Por esse motivo, tal refinamento da demagogia de maneira imperceptível vai envolvendo, pelo lado afetivo as populações. E, sobretudo em época de eleições, políticos de todos partidos e movimentos ideológicos recorrem à máscara do kitsch para personificarem-se como “paladinos do bem”. Mas, protagonizam o mal.
Por copiar o Bem, só na aparência, para citado autor, o kitsch estabelece uma verdadeira inquisição. Que se opõe à originalidade e obsta aos artistas a autêntica criação de obras inesperadas. Trata-se puramente de uma técnica, não detendo a espontaneidade que faz transparecer. É empregada pelos meios de comunicação, operadores de marketing, artistas, atletas, líderes políticos e religiosos. Pelos que agem para, acima de tudo, satisfazer o emocional da população. Para “monopolizar”, “dar ibope” e “criar ídolos”. A mentira do kitsch é tão bem empregada, que o próprio mentiroso acredita nela. Daí defrontarmos com aqueles que, sem perceberem sua sutileza, enganam a si mesmos. Crêem que agem de coração espontâneo, sem o maquiavelismo que os condiciona.
O kitsch constitui-se no que o brasileiro chama de “apelação”. É poderoso e autoritário. Embriaga legiões, turbas e multidões. Até aqueles que o manipulam, são por ele manipulados. Invisivelmente, atua com força e violência irracionais. Sempre em nome do bem. Seus ativistas são os obreiros fraudulentos (que São Paulo cita em 2 Coríntios 11:13-14) transformados em anjos de luz. Esses, “com bondade estampada no rosto”, encarnam a sinceridade para materializar seus interesses. Por isso, o kitsch é diabólico até mesmo nas religiões, conforme o próprio Kundera enumerou: “kitsch católico, protestante, judeu, comunista, fascista, democrático, feminista, europeu, americano, nacional, internacional”. As massas populares e grandes manifestações, nas quais o povo fraternalmente utiliza os arquétipos de um sentimentalismo nacional, político ou religioso é uma das características que ajuda a identificar líderes que recorrem a essa técnica, ou melhor, a esse fundamentalismo. Que atua num plano invisível, a contrariar a Paz e a universalidade do Amor. Porque atribui exclusivamente a um único grupo de “eleitos”, a verdade, o direito e o bem. Daí, desse sentimentalismo idólatra e dogmático, advir patenteada a verdadeira inquisição dos tempos modernos — a ditadura do coração.
Paulo Cesar Cavazin
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