A relevância do costume de estabelecer debates e diálogos com habitantes da própria cidade (ou do próprio Estado) foi, na Grécia Antiga, preconizada por Sócrates. Aquele sábio promovia encontros e dialogava com as pessoas em ginásios e praças públicas. E isso causou incômodos aos poderosos da época que o condenaram como subversivo e ateísta. Para tal filósofo a grande busca humana seria a da realidade última do homem. E tal conceito fugiria da razão individual, devido à parcialidade do juízo de uma só pessoa. Por esse motivo, tal entendimento somente adviria do espírito coletivo de homens íntegros, que chegariam à visão dos caminhos éticos e sociais a serem trilhados.
Foi Sócrates (469-399 a.C.), o primeiro a ver o homem como psyché, isto é, como sua própria alma ou espírito. Pois, unicamente do subjetivismo adviriam as diferenças que caracterizam uns de outros. Só na interioridade estaria a essência da personalidade, do caráter, da razão, da consciência, da inteligência, do senso ético, da vida e da história. Esses valores são distintos e exclusivos de cada pessoa. Assim, entendia o sábio, que a missão divinamente atribuída aos filósofos (como era o seu caso) estava no trabalho de ensinar o ser humano a cultivar a própria alma, sempre de modo voltado a vivificar o Espírito Humano. Sua idéia de que o corpo físico seria apenas uma ferramenta da psyché ganhou muitos adeptos. Dividiu a História da Filosofia em “pré-socráticos” e “pós-socráticos” e veio a prevalecer na inspiração de toda ideologia humanista. Daí a importância do homem crer num Ente Superior e da noção de que “viver é agir”. Numa visão filosófica, há muitas similaridades conceituais entre “Filho do Homem (Cristo)” e o “Espírito Humano Socrático”, como, por exemplo, é visível em Mt 18:20, “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”.
Esses conceitos serviram de base para a criação, em Atenas, da Democracia. E também à justificativa para que a cidadania viesse a abranger apenas uma elite de bons costumes e em condição de dispor de um “status” participativo. Só os livres teriam condição de exercer a liberdade de expressão, porque seriam “donos da própria verdade”.Daí a restrição aos que viviam sob dependência, como os escravos, crianças e mulheres (e, também, os estrangeiros). Teoricamente, na visão dos gregos antigos, o ser humano imóvel, inoperante, alienado e sem condição participativa, poderia estar fisiologicamente vivo, porém, se achava tolhido em sua capacidade; privado da faculdade que lhe permitiria pleno juízo de valores e a ampla realização como ser social. Excluídos ainda, estavam os indivíduos com “vícios dissimulados” que obstariam a vivificação do Espírito Humano, como é o caso dos ignorantes, dos fanáticos e dos ambiciosos. No entanto, foi essa tríade, que invadia as instituições como um “Cavalo de Tróia”, que destruiu a democracia grega e, ainda hoje, é a que mata o Espírito Humano.
Por isso, segundo o consagrado antropólogo americano Ralph Linton (1893-1953): “A conquista da sociedade será o maior triunfo da carreira humana. Ao seu lado, até mesmo a conquista do espaço interplanetário se tornará insignificante. Mal se poderá duvidar de que ela venha a ser obtida, mas é pouco provável que nossa civilização a obtenha. Na Grécia antiga, o espírito humano se manteve livre durante alguns séculos. Os homens podiam investigar e discutir sem medo da Igreja ou do Estado, buscando a verdade onde quer que ela parecesse estar. Talvez pela primeira vez na história, os potenciais do espírito transpareceram”.
Do Instituto Jurídico
ACIL
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