Dizem que o conteúdo da bolsa de uma
mulher ou da carteira dos homens revela muito de sua personalidade.
Se isso é verdade, o Banco Central poderia ser considerado
uma espécie de vidente, pelo menos da vida financeira das
pessoas. Você sabe quanto tem na sua carteira neste momento?
Se são cerca de R$ 30 e você usa esse dinheiro para
compras pequenas, como as de padaria, e opta pelos cartões
de débito e crédito para contas maiores, o BC está
certo. Esses são alguns dos hábitos financeiros da
maioria da população brasileira, de acordo com as
estatísticas de uso de moeda mais recentes da instituição.
Mas nas ruas do Centro de São Paulo, no meio da concentração
do mercado financeiro, também é fácil encontrar
pessoas com posições mais extremas. O gerente de tecnologia
André Antunes conta que nunca tem dinheiro no bolso. Prefere
dois cartões de crédito e um de débito. “Quando
preciso gastar, passo em um caixa eletrônico. É mais
seguro. Em breve o dinheiro de papel será coisa do passado”,
afirma.
A teoria de Antunes tem fundamento. De acordo com o chefe do Departamento
do Meio Circulante do Banco Central, João Sidney de Figueiredo
Filho, nos anos 1980, a expectativa realmente era de que, no século
21, as notas e as moedas não circulariam mais – as
transações seriam eletrônicas. Só que,
na prática, isso ainda vai demorar muito para ocorrer.
A tecnologia dos bancos está longe de chegar a todos. A maior
parte da população (77%) faz seus pagamentos mensais
de contas e compras de produtos com dinheiro vivo. Os demais 23%
usam outros meios: 11%, cartão de crédito; 8%, de
débito. Apenas 3% optam pelo talão de cheques e 1%,
pelo débito automático. O valor que cada um carrega
aumentou. Em 2005, a média era de R$ 30,94 por consumidor.
Em 2007, foi de R$ 31.
O chefe do Departamento do Meio Circulante do BC explica o porquê
de, apesar do crescente investimento dos bancos em tecnologia, a
maioria das pessoas ainda ter o hábito de comprar em dinheiro.
“Em muitas regiões brasileiras os trabalhadores ainda
não têm conta corrente e recebem salário em
dinheiro, como no Nordeste, por exemplo, onde o índice de
profissionais que se enquadram nessa situação chega
a 70%.”
Moeda de R$ 2
Enquanto isso, o dinheiro em espécie continua mesmo em
alta. O levantamento mostra que 64% das pessoas destinam até
R$ 500 todo mês para pagar contas e produtos. Para melhorar
o dia-a-dia desse consumidor, o Banco Central está estudando
a possibilidade de criar a moeda de R$ 2, entre outras coisas.
Para o diretor da pós-graduação da Faculdade
Armando Álvares Penteado (FAAP), Tharcísio Souza
Santos, as pessoas ainda não estão acostumadas a
trabalhar com as instituições financeiras –
um mercado que tem muito a crescer no Brasil. “Na Europa,
EUA e Japão, os cartões de crédito e débito
são muito comuns. O caminho é bancarizar os menos
favorecidos. É como o computador: há dez anos, só
as classes A e B tinham. Hoje, quase todos têm.”