Pelo menos uma vez na vida, quase todo mundo
se propôs a fazer um orçamento doméstico e
prometeu a si mesmo que não iria fugir dos cortes traçados
para economizar. O problema é que quase sempre não
cumprimos o planejado. Mas o que dá errado? Por que fugimos
do que está proposto? Segundo a professora de economia
doméstica da Universidade Federal de Viçosa (MG),
Ana Lídia Coutinho Galvão, nós esquecemos
das pequenas despesas. São elas as vilãs de qualquer
orçamento.
O gasto com o cafezinho, de apenas R$ 2 por dia, torna-se mais
de R$ 700 por ano. O mesmo acontece com o chocolate, o chiclete,
o dinheiro para o lanche da criança e as visitas às
lojas de R$ 1,99. “As pessoas esquecem que várias
coisas baratinhas no mês, quando somadas, dão um
valor substancial. Se forem anualizadas então, nem se fala”,
afirma Ana Lídia.
E isso não acontece só com as compras. Em casa,
escolhemos uma geladeira preocupados com o gasto de energia, mas
depois a deixamos com a porta aberta por vários minutos
enquanto pensamos no que comer. Também é fácil
de esquecer de apagar as luzes quando saímos de cada cômodo.
“Nunca vi ninguém se enforcar financeiramente com
as contas de financiamento do carro ou da casa ou mesmo por pagar
aluguel. Essas despesas a gente não esquece. O que não
contabilizamos são as pequenas coisas do dia-a-dia”,
diz a professora.
TUDO NO PAPEL
Na hora de fazer o planejamento familiar é importante
colocar tudo no papel para visualizar bem o peso de cada item
no orçamento. Ana Lídia ensina a montar uma tabela
simples, formada por três colunas. Na primeira devem constar
todos os gastos, relacionados um a um, como financiamento do carro,
gasolina, férias, dízimo etc. Não se esqueça
dos sazonais, como Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU)
e Imposto sobre Propriedade de Veículo Automotor (IPVA).
Na segunda coluna, entra a previsão de custo para cada
um dos itens apresentados. A última parte da tabela é
preenchida com o valor efetivamente gasto.
No final entram a renda familiar e o total de despesas efetivadas.
Assim é possível saber quanto da renda é
comprometida com cada item. É aí que aparece “o
peso do cafezinho”. Se a conta ficar negativa é hora
de repensar o que está errado e começar a cortar.
SAINDO DO SUFOCO
Ana Lídia dá várias dicas para as pessoas
tentarem sair da situação de aperto financeiro.
A primeira é envolver toda a família na proposta
de criação de um orçamento doméstico.
Não adianta o marido querer cortar a despesa de salão
de cabeleireiro se a mulher não vai deixar de freqüentá-lo.
Outra sugestão é deixar cada membro da família
responsável por uma parte dos gastos. “Sugiro que
fique nas mãos dos adolescentes a tentativa de reduzir
os gastos com telefone. Afinal, normalmente são eles os
maiores usuários desse serviço. Ter esse controle
é bom para aprenderem a planejar e também para terem
noção de quanto desperdiçam.”
Outras dicas bastante conhecidas, mas valiosas, são listadas
pela professora Shandra Carmen Sales de Aguiar, do Núcleo
de Educação do Consumidor da Universidade Federal
do Ceará (UFC). “Faça a lista de compras do
supermercado em casa, acrescente apenas os itens esporádicos
e não fuja dela. Também não vá às
compras com fome. Vários estudos já provaram que
as pessoas compram mais quando estão famintas”, diz.
Com os filhos, é importante decidir se terão mesada,
se vão levar lanche de casa ou comprarão na escola.
“Comer na cantina todo dia custa muito”, afirma Shandra.
TRANSPORTE E LAZER
Além disso, dá para reduzir o custo de levar e
trazer as crianças todo dia, explica a professora, se os
pais fizerem grupos de carona à escola, com escalas, para
cada dia um levar todo o grupo de alunos do bairro ou do condomínio.
Com transporte, aliás, dá para economizar bastante
se a família não esquecer de fazer a manutenção
adequada dos automóveis. “Alinhar a direção
e balancear as rodas são medidas que ajudam a conservar
os pneus, por exemplo. A manutenção sempre é
mais barata do que o conserto”, afirma o mecânico
Silvio Guerra, da oficina Santa Inês.
Na hora do lazer, a dica principal é procurar opções
gratuitas ou mais em conta que as tradicionais e fugir de centros
de consumo como os shoppings. “Sempre existe a possibilidade
de ir a parques. Leve seus filhos para andar de bicicleta, correr”,
recomenda a professora Ana Lídia, da Universidade de Viçosa.
No dia-a-dia, o importante é não descuidar da casa
para não gastar com reformas. E evite ao máximo
fazer financiamentos ou tomar empréstimos. Os juros reais
no Brasil estão entre os mais altos do mundo.